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Leila Oliver

Aprendendo a viver

Ser/Ter dono

É senso comum que o ser humano deseja o poder.

Ser o dono! Ser quem comanda…

Tudo é vilipendiado em troca de poder.

O domínio e o governo se tornam, muitas vezes, a principal ambição humana na qual homens e mulheres disputam o tempo todo e se entregam a um jogo de nitroglicerina pura.

Virilidade, vitalidade e vaidade são vendas garantidas.

Sexo, sucesso e dinheiro são focos unânimes.

Tudo isto é subterfúgio para ser “o dono”

 

Dizem que ninguém é de ninguém.

Mas todo o mundo quer dominar todo o mundo.

Acaba se tornando o paradoxo de uma caixa de espelhos.

Ilusionismo catequisado.

 

Dominar coisas é uma ordem natural.

Dominar pessoas é disfuncional.

É frustrante dominar o tempo todo.

Quem domina é temido, mas nem sempre é amado!

A ânsia pelo poder talvez tenha sua raiz na carência de um amor.

Quem precisa dominar, muitas vezes não tem a quem se render.

 

Ser o dono pode trazer realizações extraordinárias.

Ter um Dono, pode trazer uma felicidade imensurável.

 

Ter um Dono é um sentimento de pertença!

De estar completo, pleno, vivo!

Pertencer é compartilhar segredos no mais denso silêncio!

É ser dominado, porque se quis deixar dominar…

Inteiramente rendido… sem nunca disputar quem dá as ordens.

É estar cativo e nunca desejar a liberdade!

 

 

Dizem que ninguém é de ninguém…

Mas o que todo mundo quer, é encontrar alguém para se render.

Porque o sentimento mais gostoso é o sentimento correspondido.

Mais prazeroso que olhar ao redor e dizer: “Eu sou o dono”,

É olhar nos olhos e poder dizer: “És o meu Dono”…

 

 

Alma Nua

Nudez é fundamental.

Indispensável.

Inegociável.

Nudez é vital!

Essencial!

Sine qua non.

 

Quem fica nu se revela.

Se permite ser visto sem lentes.

Se desarma.

Se entrega liberalmente.

Nudez é confiança.

 

Quem quer o outro diante de si, precisa se desnudar.

Desnudar-se por inteiro, mas não propriamente de pele.

Desarmar a alma.

Desmascarar a pseudo-perfeição.

Despir-se do orgulho.

Baixar a guarda das intenções mais secretas.

Abandonar os títulos e se enxergar na nudez do outro.

Esquecer a profissão, a conta bancária, o staus quo.

Sem julgamentos, sem pré-conceitos, sem preconceito.

 

Desatar as lembranças tristes do passado.

Permitir-se o presente e o futuro.

Apossar-se de uma tela branca para pintar de novo.

Permitir uma nudez que seja vista e revista,

Autenticada pelas cicatrizes e cada marca deixada.

Quem nunca se desnuda nunca se encontra.

Quem nunca se despiu, nunca se revelou.

Difícil é se livrar dos medos e se encarar nu.

Difícil é ser aceito se revelando nu.

 

Nudez não é o contrário de estar coberto.

Nudez é sinônimo de estar transparente, translúcido e entregue.

 

Ilusão é esconder a alma nas roupas, pompas e circunstâncias.

Coragem é se mostrar nu de alma, autenticamente!

Sorte é ter alguém com quem compartilhar a nudez de cada dia!

 

Final Feliz

Gosto de histórias em que o príncipe surge em um cavalo branco.

Em que o herói beija a mocinha e são felizes para sempre.

Onde todo o mistério e as buscas do passado, libertam a angústia presente de todo o elenco.

 

Gosto de pais que encontram os filhos.

De filhos que se voltam para os pais.

De desertos que florescem e frutificam.

De bruxa que murcha em sua capa, seca e desaparece.

 

Gosto de histórias de bichos que falam.

De tesouros descobertos.

Castelos, fortalezas e jardins.

Exércitos e bons combates.

De Revoluções que começam nas ruas e terminam mudando leis e poderes.

De luas, estrelas e danças cobertas de véus…

 

Gosto de dias de chuva com um bom livro nas mãos.

De noites que amanhecem e permanecemos acordados ansiosos pelo desfecho da trama.

Pode ser futurista ou em épocas passadas.

Pode-se passar toda a trama em batalhas e pelejas, mas o final tem que ser bom.

É inadmissível um final ser ruim.

 

Acostumamos tanto a pensar que só o final é que pode ser feliz,  que quando experimentamos uma fração da tal felicidade, achamos que não acontecerá novamente.

Sempre temos a impressão que será a última vez.

Momentos bons são eternos…

Mas são só alguns momentos que se eternizam!

Estamos tão imersos na trama que mínimos flashes da tal felicidade nos motivam a insistir para chegar ao final.

 

Então, quando é que sabemos que vale a pena?

Bom, na verdade não sabemos.

Só descobrimos no fim.

Apostamos uma vida, a nossa vida, para um final que desejamos.

 

Se é assim, só no final mesmo é que o saberemos.

 

Parece um pouco estranho, mas é extremamente hipnotizante quando uma história começa mal, um caos total e termina com um “felizes para sempre”.

 

A trama pode ser boa o tempo todo, mas se o final não for feliz, gera uma revolta. Não terá valido à pena.

Melhor ainda é quando o autor deixa uma sugestão que após o final, a história continuará.

Enquanto temos a vida em nossas mãos, tem que haver um jeito de escrever, reescrever e escrever de novo, até chegar a um final que satisfaça.

 

Até Deus se empenha em escrever bem.

Ele escreve mesmo em trevas, abismos, linhas tortas, caminhos sinuosos e corações de pedras…

Ele disse que o fim das coisas é melhor que o princípio delas…

Esperançoso, não?

Deus deve ter mesmo muito tempo e gosto para fazer o que faz.

 

Seria uma sinopse da nossa história?

 

Tudo começando em trevas, sem forma e vazio…

Depois, diversas histórias de tudo o que se pode imaginar no mundo dos homens, anjos e demônios…

E no fim… Ah! no fim… Um Príncipe que anuncia uma insurgência, é morto, ressuscita e depois de milênios volta como “O Rei” num cavalo branco, com uma noiva perfeita, uma cidade inteirinha de ouro e pedras preciosas onde ninguém mais chora e nem morre… Enfim, Deus e os homens numa fusão cósmica e eterna sem ponto final…

 

Perfeito! A melhor história!

Penso que por isso, não aceitamos finais infelizes. Talvez até exista uma programação neural para sermos assim: obcecados por finais felizes…

 

Propósito

Tudo tem o seu começo.

Tudo tem o seu final.

Tudo tem o seu propósito.

Tudo tem o seu tempo certo.

Não vivemos por viver.

 

Mal percebemos o que começou e logo, já chegou ao fim.

Pensamos que tudo acabou e só está no princípio.

Parece até uma cantiga de roda.

Tanto faz para coisas boas ou ruins, a cadência é a mesma.

Não se sabe quando as coisas começam a mudar.

Somos enganados com muita facilidade,

Fim e princípio parecem tão iguais!

Nosso coração nos engana.

Nosso cérebro trapaceia na percepção.

Distraímos.

O tempo das coisas é radicalmente imprevisível.

Perdemo-nos muito rapidamente e por motivos tão pequenos.

Cansamos e paramos na hora errada.

Iludimos e continuamos o que já acabou.

Quando pensamos que compreendemos algo, ou que “pegamos o jeito”, vem alguma surpresinha!

Somos obrigados a rever nossas posições, fortalecer pontos fracos e assumir riscos novamente.

 

Que vida confusa!

Se soubermos “o quê” não saberemos o “quando”.

Quando entendemos o “quem” não conhecemos o “como”.

Qual a diferença entre esperança e ilusão?

Qual a distância entre desapegar e acomodar com a falta?

Qual a linha tênue entre a ambição e os sonhos?

O limite entre o gosto e o vício?

 

Nossa percepção é falha nos processos.

Nossas lentes adquiridas em vivências anteriores ficam desconectadas e nos perdemos.

Cansamos e desesperamos achando que tudo se acabou.

 

Porém, nesta dança de recomeços há renovações…

Recriações possíveis e impossíveis.

Um alvo da sabedoria talvez seja discernir os propósitos.

Assim, como um viés, cada fase nos conduz a um patamar.

Se demorarmos a perceber as mudanças, precisamos ser rápidos nos ajustes e nos treinar a isto.

É impossível não perder tempo na ignorância.

Mas é possível aproveitá-lo assim que desvendamos o propósito.

 

É uma pena terminar certas fases, mas a ciranda é a mesma.

Talvez o que esteja bom e pensamos que está no fim, pode estar só começando… De uma forma mais consistente e melhor!

 

O “que seja eterno enquanto dure” não quer dizer que acabou.

Pois no contexto do soneto, toda a poesia está em linguagem temporal futura…

Ou seja, quer dizer que continuará durando enquanto houver tempo presente.

 

Se tudo começa e termina, a constante é a mudança.

Se tudo muda, o que prevalece é o propósito de cada etapa.

Se em tudo há propósito, o tempo determinado é o Eterno!

 

Enquanto o Hoje for possível, haverá propósitos!

Diálogo

Não quero interromper o teu silêncio, meu Amigo.

Desculpe-me, mas meu coração se apegou a Ti.

Meu riso está abalado pelo terror de não ouvir teus pensamentos.

Talvez eu nem te incomode com minha pequenez…

Mas sei que meus pensamentos, a Ti, são irresistíveis.

Tu me conheces.

Teus pensamentos estão em mim, mas não consigo ouvi-los.

Preciso enxergar com os teus olhos.

Esta angústia sufoca e chega a romper em lágrimas.

Sei que estás em mim, mas o teu silêncio é assombroso.

Conheço-te, sei que és grande!

Também sei que não te ofendo, pois não tenho tamanho suficiente para tal… Tu me conheces.

 

Quero ser uma criança, acalentada no embalo dos teus braços. Quero ouvir tua respiração e adormecer aninhada em ti.

Voltar à inocência, confiar na tua voz.

Tome minhas mãos, leva-me.

Já acostumei aos teus passos, tua direção.

Eu sei caminhar, aprendi contigo, mas quero-te à minha frente.

 

Dá-me o ar de tua graça, mostra-te gentil e agradável.

Não olhes o que me falta, muito menos o que não sou.

Se bem te conheço, sei que estás bem perto.

Afinal, me desafias, mas me proteges.

Ouves, mas permaneces em silêncio.

Sei que vigias as noites em que não durmo.

Choras o meu choro e sorri meu riso.

Mas eu permaneço com vendas nos olhos.

 

Sendo tu um fruto da minha imaginação, não me decepcionarias.

Cumpriria todos os meus desejos, conforme todo o meu querer.

Como frustras a muitos dos meus anseios, sei que és real.

 

Tu me ensinaste a sonhar.

Vem! Compartilha comigo teus sonhos?

Hoje eu sonho por Ti.

Não preciso dormir, sonho-te acordada.

Alimenta-me com tuas esperanças, afinal, eu te respiro.

 

Numa realidade possível, por favor, desvenda o meu olhar!

Desvenda-me para que eu me veja nos teus olhos.

E me sinta dentro de Ti, no lugar onde estejam os teus pensamentos.

 

Fala comigo, conta-me o que pensas…

Ficarei em silêncio, talvez o silêncio seja teu código, teu signo.

Se não ouvir o meu acalentar das palavras, escreverei.

Tu lerás meu silêncio e assim, quem sabe, me lerás.

Acalma meu coração e fecharei os olhos.

Desculpe se confundi silêncio com ausência.

Esperarei, até poder ouvir o que está em Ti!

Esperarei. És tu o meu Amigo.

O Amigo de minh’alma!

Sim! Eu vou esperar!

 

Estrelas

Imaginação infantil pode parecer sem sentido ou razão.

Mas foram sem razão e sentido que muitos avanços nasceram.

Se há muito tempo ninguém nos chama de loucos, pode haver algo de errado… conosco!

 

Uma criança de três anos descobre que existe estrela-do-mar…

Imaginou?

 

– Mamãe, é verdade que existe estrela-do-mar?

– Sim, meu bem, existe!

– Mamãe, e se uma estrela-do-mar se apaixonar por uma estrela do céu?

– Hum… Vamos ver… Era uma vez…

 

Uma Estrela muito brilhante que vivia no céu.

Ela chamava muita atenção, pois seu brilho era de várias cores.

Sim, ali estava uma Estrela muito especial.

Sempre brilhando, poderosamente, no mesmo lugar.

 

Muitos navegantes, de barquinhos pequeninos e até grandes navios, confiavam suas vidas a ela. Quando navegavam, ficavam observando onde estava aquela Estrela para conseguirem chegar à terra firme. Nunca erravam o caminho se estivessem olhando para ela, pois ela sempre estava no mesmo lugar, e apontava o mesmo caminho.

 

O brilho daquela Estrela era como um sorriso em noites de chuva. Até mesmo, quando as nuvens tentavam esconde-la, ela conseguia enviar um raiozinho de luz, que fosse, para que o navegante não se perdesse no mar!

 

A gente pensa que as Estrelas do céu estão muito perto umas das outras, mas na verdade, elas estão muito longe.

Cada uma tem muitos corpos celestes ao redor, mas nunca há outra estrela ao seu lado. Duas estrelas do céu, jamais se abraçam!

 

Apesar de guiarem muitos navegantes no mar, as Estrelas do céu se sentem muito sozinhas, pois todas elas têm que ficar muito ocupadas em brilhar. Já pensou se elas se esquecerem do brilho por uma noite apenas, e o navegante não puder vê-la? O barco e o navio afundarão com todos os navegantes dentro…

Esta preocupação faz com que as estrelas do céu fiquem muito ocupadas e se sintam muito sós.

 

Como a Estrela do céu estava acostumada a guiar os navegantes, ela sempre prestava muita atenção nas águas.

De tanto olhar para o mar, ela via que nas noites de lua cheia, havia um brilho diferente na água. Parecia até com o brilho de uma estrela, mas a Estrela do céu pensava que não existiam estrelas na terra.

 

Bem, na verdade, na terra não existem mesmo.

Mas no mar havia sim!

Muito curiosa em saber que brilho era aquele, a Estrela do céu  enviou um raio de luz muito forte para iluminar a água.

Foi aí, que a surpresa aconteceu: ela descobriu que existia Estrela-do-mar!

 

A Estrela do céu começou a se encantar pela Estrela-do-mar, pois via que nas luas cheias, ela ficava mais bonita, mais brilhante.

A Estrela-do-mar, estava sempre sorrindo pois, mesmo não tendo brilho como as Estrelas do céu, ela conseguia brilhar com o reflexo da luz da lua sobre água, também, podia se regenerar facilmente e tinha liberdade de se mover nas ondas da praia.

 

Ela conhecia o fundo do mar e todos os seus mistérios…

As colônias de corais, tartarugas, polvos e peixes, dos mais bonitos que poderiam existir.

 

A Estrela do céu ficou tão enamorada da Estrela-do-mar que começou a brilhar mais sobre ela… Foi aí que a Estrela-do-mar percebeu que havia alguém que a amava lá no alto do céu…

Elas começaram a prestar atenção uma na outra de uma maneira muito especial. A Estrela-do-mar já não dormia mais durante a noite, por que quem se apaixona não dorme… só fica sonhando de olhos abertos…

 

Assim, elas esperavam a lua cheia e, nestas noites , namoravam, conversavam e sonhavam juntas. Imaginando como seria se pudessem ficar pertinho uma da outra e tudo que poderiam fazer se não houvesse esta distância toda…

 

Quando iniciava o nascer do sol, as duas tinham que se despedir, pois a Estrela do céu tem que se esconder quando o sol chega, e a Estrela-do-mar tem que se esconder nas águas mais profundas, durante o dia, para não ser capturada pelas crianças que brincam na praia.

 

Houve uma noite, que aconteceu uma tempestade no mar e as ondas estavam muito fortes…  Todos os barquinhos e navios foram arremessados de um lado para o outro.

 

A Estrela-do-mar não conseguiu mergulhar para as águas mais profundas, onde era mais calmo. As ondas do mar a arremessaram contra muitos penhascos e ela foi se ferindo, perdendo muitos pedacinhos.

 

A Estrela do céu ficou desesperada, pois não conseguia atravessar as nuvens e a chuva forte para ver seu amor… A noite passou e nasceu o dia. Parecia uma eternidade esperar pelas noites de lua cheia para começar a procura, mas nada encontrou…

 

A lua cheia chegou. Em uma daquelas noites, a Estrela do céu viu alguns pedacinhos da sua amada Estrela-do-mar perto dos penhascos. Uma tristeza muito forte encheu seu coração, pois pensou que havia perdido sua companheira para todo o sempre.

 

 

Com passar dos dias, a Estrela do céu, nem se ocupava mais em iluminar os navegantes e passava as noites todas procurando a Estrela-do-mar que nunca mais apareceu… Pensou em desistir, pois estava impossível. Fez de tudo para esquecer o seu amor e se desapegar das doces lembranças das noites em que sonhavam juntas. Mas não conseguiu!

 

A Estrela do céu estava perdendo o seu brilho de tanta solidão, então, ela teve uma ideia. Foi atrás do Criador das estrelas e pediu a ele que tivesse a oportunidade de procurar sua Estrela-do-mar todos os dias e noites, e não só nas noites de lua cheia…

 

O Criador disse que havia uma forma sim! Mas havia uma condição…

Todas as vezes que uma estrela do céu deseja ir para a terra, ela se transforma em uma estrela cadente e pode descer do céu.

Mas é para todo o sempre, nunca mais pode voltar…

 

Todo mundo sabe que se a gente fizer um pedido, quando temos a sorte de ver uma Estrela cadente, o pedido se realiza. Mas ninguém sabe que a Estrela cadente também pode fazer um pedido enquanto desce do céu… E ela fez o pedido!

 

Mesmo sem a certeza que encontraria sua Estrela-do-mar e mesmo sabendo que nunca mais teria o poder de brilhar no céu, estava decidido! A estrela do céu fechou os olhos e mergulhou universo a baixo…

 

Enquanto isso, preso em uma fenda do penhasco, havia um pedaço da Estrela-do-mar. Era um pedaço maiorzinho que estava  pacientemente tentando regenerar as partes que ficaram faltando após a tempestade! Mas estava muito fraca.

 

Ali, bem presa à fenda do penhasco, a Estrela-do-mar não conseguia se comunicar com a Estrela do céu e pensava que havia se perdido para sempre… Que tristeza havia em seu coração… Estava ansiosa para que chegasse a lua cheia, pois com sua ajuda, poderia, mais uma vez, refletir a sua luz e quem sabe, ser encontrada.

 

De repente, houve um clarão nas águas próximas ao penhasco. As águas se debateram e atingiram a fenda em que a Estrela do mar estava presa. Aflita pela agitação das águas, ela começou a se mexer. Sem perceber, ela se soltou da fenda e caiu no mar…

 

Mergulhada no frescor da água, sentiu-se livre novamente. Seu coração se encheu de esperança em voltar para a praia, pois aproveitaria a luz da lua cheia para atrair a atenção da sua estrela celeste. Era a única coisa em que pensava.

Porém, seu coração moveu seus olhos para baixo, em direção ao fundo do mar!

Não poderia ser possível! Era inacreditável! Sua Estrela do céu estava no mar, meio desmaiada, toda ferida pelo calor da descida do céu.

 

Cheia de esperança e também, com muito medo, foi nadando até chegar bem perto. Com o coração em muito aperto, a Estrela-do-mar abraçou a Estrela do céu e as duas se uniram tanto que pareciam ser uma só. O poder de regeneração que havia nos braços da Estrela-do-mar, curou a estrela do céu.

 

A união destas duas Estrelas, tão diferentes, fez muita coisa boa. Elas faziam tudo juntas: brilhavam, se regeneravam e agora não precisavam esperar as noites de lua cheia para se encontrarem. Durante o dia, a Estrela do céu se deixava levar pela liberdade da Estrela-do-mar e passeavam nas águas… Mas sempre voltavam para a praia antes de anoitecer, pois, durante a noite, a Estrela-do-mar refletia a luz da sua Estrela do céu para guiar os navegantes dos barquinhos e dos navios…

 

E foram felizes para sempre…

 

– Pronto… Já dormiu… – sussurrou a mãe, exausta e se espreguiçando.

– Mamãe! E o pedido? – Disse a criança afoita.

– Que pedido, meu anjo?

– O pedido da Estrela do céu, quando virou Estrela Cadente…

– Ah sim, o pedido da Estrela do céu, era que, quando se tornasse uma, com a sua amada Estrela-do-mar, elas nunca, mas nunca, perdessem a sua essência e nem abandonassem a sua missão de guiar as pessoas a portos seguros e pensamentos livres!

 

Sacerdócio

Ninguém escolhe uma vida sacerdotal.

É o Sacerdócio quem nos escolhe.

A partir do momento em que não podemos nos tornar outra coisa

além do que somos, encontramos nossa genuína vocação.

Vocação flui, pois não pode ser contida.

A vida sacerdotal é seletiva, sacrificial.

Sacerdócio não se rende ao sono, ao cansaço, ao desgosto, pois

representa “Algo maior”.

É altruísta, Kamikaze. Exige a aniquilação do Eu, das vontades-

próprias, das autorrealizações e sonhos pessoais.

Pensa coletivamente, enxerga além da visão!

Busca superação, transcendência, rupturas e elos.

Sacerdócio não se vende.

A partir do momento em que encontramos nossa vocação, somos

movidos por ela, o tempo todo.

Fica impregnado ao caráter.

O Sacerdócio promove boa reputação.

Associa imagens públicas de um discurso ilibado seguido de

atitudes concretas…

O Sacerdócio é perfeito.

Já o sacerdote, pode não ser.

Quando falhamos, somos esmagados pela culpa de termos traído

nossa essência. Somos assombrados pela sensação de termos

ido contra a nossa natureza e atormentados pelas ânsias do vazio.

A consciência do sacerdote se torna tão escravizada ao

Sacerdócio que há uma corrida desesperada para acertar o alvo

novamente.

Acredite: é consumidor!

Não nos sentimos livres para fazer nossas vontades.

Temos muitas, mas sacrificamos em detrimento da missão.

 

Nossa liberdade, está em conseguir fazer o que precisa ser feito.

Descansamos apenas quando, já exaustos, superamos nossas

forças e percebemos que não foi em vão.

Não tem como deixar de ser aquilo que nascemos para ser.

Como também, não podemos desprezar o que nasceu em nós.

Em contrapartida, devemos nos aperfeiçoar naquilo que nos

tornamos…

Parece pesado, mas não é!

É natural.

É a semente das realizações.

É o sentido da felicidade.

No meu caso, o Sacerdócio é literal, Divino.

Minha vocação é servir aos homens e agradar a Deus.

Conduzo a muitos ao conhecimento das Sagradas Letras.

Variadas são as vocações que o ser humano tem.

Independente de qual seja, em qual área, ou em que

circunstância, sempre frutifica se promover justiça, paz e alegria.

Acredito que quem é feliz, tem autoconhecimento de sua vocação;

A realiza dentro do seu alcance; com todas as suas forças!

E, ao realizar, o faz como quem é um legítimo sacerdote!

Hoje

Hoje eu decidi ficar feliz o dia todo.

Declarei paz aos meus inimigos internos.

Não terei medo do que não existe, isto inclui o medo do Amanhã.

Fecharei as cortinas mentais da ansiedade.

Descansarei no palco da serenidade.

Desfrutarei de cada segundo do Agora.

 

Vou trocar discutir por sorrir…

A tristeza e a preocupação por respiração profunda.

Ouvirei a voz de quem for preciso para me sentir bem.

Olharei nos olhos de quem me desperta amor.

Abraçarei quem semeia paixões, sejam elas quais forem.

Direi “eu te amo” antes mesmo de ter que ouvir primeiro…

Beijarei bem devagar…

 

Hoje, só por hoje, não me deixarei dominar pelo relógio.

Vou fazer tudo com calma e tudo sairá no tempo certo.

Me darei ao luxo de comer devagar.

Apreciarei o cheiro do café fresco.

Sim, está decidido: Hoje eu terei inspiração!

Deixarei meus pensamentos soltos.

Não os prenderei nem à culpa e nem mesmo aos sonhos.

Inspiração não precisa ser triste.

 

Vou me despir das armas diárias e vestirei uma roupa nova…

Daquelas que ficam guardadas para o Amanhã.

Usarei uma bolsa pequena e leve.

Carregarei o mínimo necessário.

Escolherei uma saia cheia de cores, de seda indiana esvoaçante…

Amarrarei na cintura com apenas um laço!

Vou sentir o tocar do vento na pele e no cabelo solto.

Verei tudo azul.

Se ao redor só houver preto e branco, farei uma aquarela.

 

Só por hoje confiarei nas pessoas.

Espalharei bondade e gentilezas.

Se tiver que pedir perdão, serei corajosa.

Se tiver que perdoar, serei forte.

Esquecerei o que for necessário para ser feliz.

Tudo isto será Hoje…

 

Pergunta-me sobre o Amanhã?

Hoje eu prometo me lembrar que o Amanhã não existe.

Hoje é o meu último Hoje.

Se amanhã o Amanhã se tornar um Hoje, estarei no lucro.

Administrar o lucro é mais fácil que o prejuízo.

 

Sei que não se vive assim todos os dias, mas Hoje será possível.

Só por Hoje! E se for viciante, quem sabe eu aprenda uma rotina chamada felicidade?

 

Dança do Ventre

Aquelas bailarinas lindas…

Cabelo comprido, o ventre à mostra.

A saia que se movimenta, no jogo do mostra-esconde numa cadência sedutora.

Maquiagem que faz do olhar uma arma…

Tudo para agradar o Habib!

 

Flexibilidade.

Equilíbrio.

Força.

Graciosidade.

 

Ninguém imagina que a bailarina começa no chão.

Na primeira aula, o mais difícil:

Movimentar-se em círculos ora em um sentido, ora em outro…

Deslocar o quadril preso ao chão!

Todos os movimentos de quadril e braços, literalmente rastejantes.

O desafio é impactante.

Pensa-se em desistir.

 

Mas, aos poucos, quando se levanta e coloca-se de pé.

O que parece exercício de força, se transforma em flexibilidade.

O ritmo começa a forçar o equilíbrio.

Pronto: a música começa e os movimentos fluem…

 

Muitas vezes na vida, vivemos esta dança.

Começamos rastejando em situações sem experiência alguma.

Fazemos força e nos cansamos.

Exaustão, desânimo, decepção.

Pensamos em desistir, levantar e ir embora, sem nunca saber se conseguiríamos ou não.

 

Perseveramos.

Afinal, não podemos nos dar ao luxo da desistência.

De repente, os movimentos, mesmo ainda presos, começam a tomar forma.

Sem perceber já estamos fortalecidos o suficiente para podermos fixar bem os pés, movimentar o quadril e equilibrar o peso  simultaneamente.

 

Flexibilidade é um mix de força e equilíbrio.

Força nas bases, para permanecer de pé.

Não negociar princípios.

Não esquecer nossas raízes.

São nossas referências que nos fixam.

Não podemos nos esquecer de onde viemos,

Afinal, não queremos  voltar para lá, não é mesmo?

 

Equilíbrio é uma oposição de forças extremas.

Se nossos pés estão fixos, podemos ter a mente livre.

Pés fixos.

Mentes livres.

Corpo em movimento.

Eis a flexibilidade!

 

Flexibilidade não é fraqueza, muito antes pelo contrário.

É o reconhecimento de que existem obstáculos que não podem ser removidos, mas, podem ser contornados. Assim como a água não remove a pedra, mas a contorna para continuar seu curso.

 

É o jogo de cintura, literalmente… durante toda a dança!

 

Depois de treinos, erros e acertos, é hora de dançar.

Só falta a graciosidade, o sorriso infantil e o olhar hipnótico.

 

É ter coragem para começar.

E que venham os véus, as espadas, as serpentes, os punhais, as taças e as velas…

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